sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Alfarrobeira

Alfarrobeira - Joaquín Sorolla, 1899

Ceratonia siliqua L. (Fabaceae) é originária do Médio Oriente e julga-se ter sido introduzida na Europa pela mão dos gregos. A partir da Grécia iniciou-se a expansão para o sul da Itália, onde tornou-se um símbolo da bacia do mediterrâneo. Mais tarde, chega à península ibérica. O Algarve torna-se a região das alfarrobeiras, onde os populares utilizavam as suas vagens para alimentar o gado  e no século XIX foram alvo de exportação para Gibraltar. A alfarroba era considerada o alimento dos pobres, que consumiam-na torrada. 

No arquipélago da Madeira desconhece-se a data da sua introdução, mas as suas vagens eram também utilizadas para alimentar os animais ou eram ingeridas pela população para fins medicinais, laxativos. 

Sabias Que? Na Bíblia consta que a alimentação de João Baptista, que pregava no deserto de Judeia, era gafanhotos (locust) e mel. Ora, a alfarroba era também conhecida por locust (feijão gafanhoto) pela similaridade entre a vagem e o inseto, o que poderá ter induzido em erro o autor da tradução do manuscrito. 

Fontes: - Câmara, F. 2011. Alimentos ao Sabor da História. Colares Editora. Lisboa, 173 pp. - Vieira, R.,2002. A Flora da Madeira, Plantas Vasculares Naturalizadas no Arquipélago da Madeira. Museu Municipal do Funchal. Madeira, 281 pp. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Limoeiro

Natureza morta - Pieter Claesz 1629
  Originário do sudoeste asiático, Citrus limon (L.) Burm. f. pertence à família Rutaceae e ao mais importante género de frutas do mundo. Parente da laranja doce (Citrus sinensis), da lima (Citrus aurantifolia) ou da cidra (Citrus medica) o limoeiro chegou ao sul de Itália por volta do século II, mas não ganhou grande aceitação e foi pela mão dos árabes que, a partir da Pérsia, acabou por se disseminar na bacia mediterrânica. Mais tarde, durante a Era dos Descobrimentos chegou ao continente americano. 

  No arquipélago da Madeira desconhece-se a data da sua introdução mas são várias as suas aplicações medicinais. Gripe é utilizado o "chá" do fruto; rouquidão é ingerido o sumo resultante das fatias de limão com açúcar ou aplicadas externamente rodelas do fruto na garganta presas por uma ligadura. Para "nódoas negras" é aplicado também externamente rodelas do fruto cozido nas brasas; para dores de cabeça ou nervosismo é feito pelos camponeses um "chá" de alecrim (R. officinalis), laranjeira (C. sinensis) e limoeiro. Existem ainda, outros usos medicinais, diarreia, são ingeridas papas de farinha torrada com água e cascas do limão e para problemas de fígado deverá ser ingerida água morna com sumo de limão em jejum. Por fim, para nevralgias na boca poderão ser feitos bochechos com o sumo do fruto, entre outras.

Sabias Que? Para ocultar uma mensagem escrita, pode-se recorrer ao sumo de limão, que funciona como tinta invisível. 

Fontes: - Prance G., Nesbitt M. (eds.). The Cultural History of Plants. 2005. Routledge, Great Britain. 452 pp. - Ramos, L. 2019. Plantas Aromáticas e Medicinais em Contexto Urbano - Saberes Madeirenses no Concelho do Funchal (Ilha da Madeira). Lisbon Internacional Press. Lisboa, 139 pp.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Oliveira

     Árvore considerada abençoada pelas religiões cristã, hebraica e islâmica teve um importante papel nas civilizações em redor do Mar Mediterrâneo. Na Antiga Grécia, era a árvore sagrada de Atenas, uma oferenda da deusa Atena à cidade e aos seus habitantes. Nessa época eram elaboradas coroas com pequenos ramos, e dadas aos vencedores dos Jogos Olímpicos simbolizando glória eterna e imortalidade. A oliveira está ainda associada a vários rituais cristãos, nomeadamente, a unção com azeite, no baptismo, ordenação e extrema-unção na hora da morte. Assim como, durante séculos no Mediterrâneo, vários templos, igrejas e mesquitas eram iluminados com azeite.
Ora, no arquipélago, temos a oliveira brava, da rocha ou zambujeiro, espécie endémica da Madeira, Porto Santo e Desertas outrora utilizada pela população. Esta espécie ocorre nas escarpas rochosas do litoral até aos 500 metros de altitude. A Olea madeirensis (Lowe) Rivas Mart. & del Arco pode atingir os 2,5 m de altura apresenta  folhas oblanceoladas a linear lanceoladas, verde acinzentadas e flores brancas reunidas em panículas axilares, assim como forma, um fruto elipsóide verde, preto quando maduro. 
O "chá" das folhas desta planta era usado pelos camponeses para dores de cabeça, hipertensão e tonturas. Uma das tradições ligada a esta árvore ocorria no Domingo de Ramos, onde a população antes do nascer do sol, recolhia e elaborava um ramo de várias plantas, limoeiro (Citrus limon), arruda (Ruta chalepensis), laranjeira (Citrus aurentium), alecrim (Rosmarinus officinalis), oliveira (Olea madeirensis) entre outras, e levava para ser benzido na igreja. Posteriormente, para evitar o mau-olhado e livrar-se dos maus espíritos queimavam e colocavam um pouco dos ramos benzidos numa frigideira velha com carvão, e andavam em cruz pela casa libertando o fumo produzido. Para evitar as trovoadas eram ainda queimados estes ramos benzidos e deitadas as cinzas ao vento. Ainda, para curar da "erisipela" eram passados sobre a zona efetada, pequenos ramos de palma (Phoenix sp.) e oliveira benzidos, enquanto proferiam orações, 9 vezes seguidas. 

Fontes: - Carvalho, L. M. 2011. The Symbolic Uses of Plants, in Ethnobiology. (eds. E.N.Anderson, D.Pearsall, N.Turner), John Wiley&Sons, Inc., NJ, USA  
- Jardim, R., Francisco, D.2000. Flora Endémica da Madeira. Múchia Publicações. Funchal, 339 pp.  
- Ramos, L. 2019. Plantas Aromáticas e Medicinais em Contexto Urbano - Saberes Madeirenses no Concelho do Funchal (Ilha da Madeira). Lisbon Internacional Press. Lisboa, 139 pp.

sábado, 21 de março de 2026

"As árvores e os livros"

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga, in “Herbário”